A história dos Rattus norvegicus como animais de estimação
Da convivência com os humanos à domesticação
A relação entre humanos e roedores é muito antiga. Quando as pessoas passaram a cultivar e armazenar alimentos, diferentes espécies de ratos e camundongos encontraram nas áreas ocupadas por humanos uma fonte constante de comida, água e abrigo.
É importante, porém, separar essa história mais ampla da trajetória específica do Rattus norvegicus. Também conhecido como rato-marrom, rato-da-Noruega ou ratazana, ele provavelmente se originou na Ásia. Apesar de um de seus nomes populares, a espécie não veio da Noruega.
O Rattus norvegicus se espalhou por diferentes regiões acompanhando o crescimento das cidades, do comércio e das rotas de transporte. Sua presença se tornou mais comum na Europa a partir do século XVIII, embora existam registros arqueológicos que indicam pequenas populações em períodos anteriores.
Em muitas cidades, o rato-marrom passou a ocupar espaços antes mais associados ao rato-preto, o Rattus rattus. Essa mudança não aconteceu simplesmente porque uma espécie teria caçado ou expulsado a outra. As duas espécies possuem hábitos diferentes, e as mudanças nas construções, no armazenamento de alimentos e no ambiente urbano também favoreceram o Rattus norvegicus em muitos locais.
Os ratos domésticos mantidos atualmente como animais de estimação descendem dessa espécie. A coloração natural do rato-marrom é o agouti, mas mutações espontâneas podem produzir animais com cores e marcações diferentes. Ao longo do tempo, alguns desses ratos de aparência incomum foram capturados, mantidos em cativeiro e reproduzidos.

Rato agouti, de linhagem selvagem de nosso criatório
O início dos ratos como animais de estimação
No Ocidente, a história dos primeiros ratos domésticos está ligada a uma prática cruel que foi comum em cidades da Inglaterra e dos Estados Unidos: os chamados rat pits.
Nesses eventos, ratos capturados eram colocados em uma arena com cães, geralmente terriers, enquanto as pessoas apostavam em quanto tempo o cão levaria para matar os animais. Como era necessário capturar grandes quantidades de ratos, alguns exemplares com cores ou marcações diferentes acabavam sendo separados dos demais.
Dois nomes frequentemente associados ao início da criação de ratos domésticos são Jack Black e Jimmy Shaw. Jack Black trabalhava como apanhador de ratos em Londres e ficou conhecido por manter e reproduzir alguns dos animais de cores incomuns que encontrava. Jimmy Shaw administrava locais onde eram realizados eventos com cães e também mantinha ratos diferentes dos agoutis comuns.
Esses animais eram vendidos como curiosidades ou como animais de estimação. Embora essa origem seja desconfortável, ela faz parte da história do rato doméstico no Ocidente.
O início do hobby organizado
Durante o século XIX, camundongos de diferentes cores já eram criados e exibidos no Reino Unido. Em 1895, foi fundado o National Mouse Club, uma organização voltada à criação, à padronização e às exposições de camundongos.
Em 1901, Mary Douglas conseguiu incluir uma classe para ratos em uma exposição realizada em Aylesbury, na Inglaterra. Quinze ratos participaram, e o vencedor foi um rato preto e branco com uma marcação que hoje seria reconhecida como hooded.
Mary Douglas teve um papel importante na valorização dos ratos como animais de exposição e ficou conhecida como a “mãe do rat fancy”. Com o aumento do interesse, o National Mouse Club passou a se chamar National Mouse and Rat Club em 1912.
Após a morte de Mary Douglas, em 1921, o interesse pelos ratos diminuiu. Ainda assim, eles continuaram aparecendo de forma ocasional em exposições durante as décadas seguintes.
Em janeiro de 1976, foi fundada a National Fancy Rat Society, no Reino Unido. A NFRS foi a primeira organização criada especificamente para ratos e teve um papel importante na definição de padrões, na realização de exposições e no crescimento do hobby moderno.
Nos Estados Unidos, a American Fancy Rat and Mouse Association, conhecida como AFRMA, foi criada em 1983. A associação também passou a organizar padrões e exposições para ratos e camundongos domésticos.
Os ratos na pesquisa científica
Enquanto o hobby se desenvolvia, os ratos também se tornavam importantes para a pesquisa científica.
O Rattus norvegicus foi um dos primeiros mamíferos domesticados especificamente para uso em estudos. Ratos albinos, hooded e de outras colorações foram utilizados em pesquisas desde o século XIX. No início do século XX, o Instituto Wistar, nos Estados Unidos, começou a desenvolver uma das linhagens de laboratório mais conhecidas até hoje.
Os ratos domésticos mantidos como pets e os ratos utilizados em laboratório possuem a mesma origem na espécie Rattus norvegicus, mas suas histórias não são exatamente iguais. As linhagens foram selecionadas com objetivos diferentes e podem apresentar características distintas.
A história dos ratos de estimação no Brasil
A origem das primeiras linhagens de ratos mantidas como animais de estimação no Brasil é pouco documentada.
Relatos de criadores mais antigos indicam que parte dos animais disponíveis antes da organização do hobby vinha de biotérios, de criadores de animais para alimentação de répteis e de cruzamentos realizados ao longo dos anos. No entanto, não existem registros públicos suficientes para reconstruir essa história com precisão.
Por esse motivo, essa parte da história deve ser tratada como um conjunto de relatos do hobby brasileiro, e não como um registro definitivo.
O Rio de Janeiro e os “ratos de ouro”
Um episódio curioso da relação entre humanos e ratos no Brasil aconteceu no início do século XX, durante o combate à peste bubônica no Rio de Janeiro.
Em 1904, a Diretoria Geral de Saúde Pública, comandada por Oswaldo Cruz, iniciou uma grande campanha de desratização. Funcionários responsáveis pela captura dos animais precisavam cumprir cotas mensais, e o governo também passou a pagar por ratos mortos entregues pela população.
A medida criou um mercado inesperado. Algumas pessoas passaram a comprar ratos por valores menores para revendê-los ao governo, enquanto outras chegaram a criar roedores com essa finalidade.
Não posso afirmar que esse episódio represente o início comprovado dos ratos como animais de estimação no Brasil, mas mostra como a relação entre a população e esses animais já era complexa há mais de um século.
As importações e o crescimento do hobby brasileiro
Um marco importante para o hobby brasileiro aconteceu em 2014 - pelo Rattaria Brasil, com a chegada de doze ratos importados de Portugal. Esses animais trouxeram ao país novas características e variedades, incluindo orelhas dumbo, hairless, blue, rex, pearl e himalayan.
Em 2015, uma nova importação, desta vez dos Estados Unidos, trouxe outros quarenta animais e ampliou a diversidade genética disponível no Brasil, com variedades como marten, Essex, Harley, dwarf, chinchilla, patchwork, Wistar Hannover, satin, Burmese, Siamese, variegated e silvermane.
Nem todas essas linhagens foram disponibilizadas e muitas se perderam ao longo dos anos. Outras só continuaram existindo graças ao esforço de alguns criadores brasileiros, sérios e focados em recuperar o máximo que conseguíssemos dos padrões e se dedicaram à sua preservação, seleção e desenvolvimento.
As importações tiveram importância por ampliar as possibilidades do hobby no país, mas a continuidade das linhagens dependeu do trabalho realizado posteriormente por diferentes criadores brasileiros.
Nesta contribuição para o hobby de resgate destas genéticas não posso deixar de citar os seguintes criatórios: Maratos, LC Ratos, Rattenhaus, Rattópolis, Uai Ratos (Straus) e claro Fanratics Rattery. Se não fosse pelos esforços destes criatórios e seus apoiadores não teríamos no Brasil mais martens, burmeses, dwarves, camarex, whitesides, pearls e essex. Muitos destes criatórios não estão mais ativos, mas é importante citar sua contribuição no hobby.
A criação da ABRRE
Em 2024, foi criada a ABRRE — Associação Brasileira de Ratos de Estimação.
A associação surgiu a partir da união de criadores e tutores interessados na valorização, na proteção e no bem-estar dos ratos de estimação no Brasil. Sua criação representa um novo momento para o hobby brasileiro, com mais espaço para a troca de informações, a orientação de tutores e a defesa de uma criação responsável.
Os ratos de estimação ainda enfrentam muito preconceito e desinformação, mas o interesse por eles cresceu ao longo dos anos. Hoje, existem comunidades, encontros, criadores, tutores e projetos dedicados a mostrar que esses animais são inteligentes, sociáveis e capazes de formar vínculos fortes com as pessoas.
A história dos ratos domésticos ainda está sendo construída, inclusive no Brasil.